obra UTI hospitalar

Executar uma obra UTI hospitalar exige um nível de planejamento, contenção e controle que excede o de outras tipologias de reforma. Em ambientes críticos, qualquer falha pode impactar a segurança do paciente, aumentar riscos de infecção e comprometer a operação assistencial. Este guia reúne práticas recomendadas, normas aplicáveis e decisões técnicas para arquitetos, gestores de obras e equipes de facilities que precisam planejar e conduzir intervenções em Unidades de Terapia Intensiva, com foco no controle de poeira e microrganismos, segregação de áreas, pressão diferencial, logística de materiais e validações de sistemas prediais em contexto hospitalar.Planejamento de obra UTI hospitalar: premissas críticasO planejamento deve começar pelo escopo técnico e pelo mapeamento de riscos clínico-assistenciais. A ferramenta-chave é a avaliação de risco para controle de infecções (ICRA – Infection Control Risk Assessment), feita em conjunto com a CCIH, engenharia clínica, operação de facilities e obra. O resultado define o nível de contenção, as barreiras físicas necessárias, os fluxos separados de pessoas e materiais, a gestão de pressão de ar e os protocolos de limpeza e testes. Em Belo Horizonte, além das diretrizes da Anvisa, é essencial alinhar o plano com a Vigilância Sanitária Municipal e com os requisitos do Corpo de Bombeiros de MG para compatibilização com PCI e rotas de fuga durante a obra.Premissas que devem constar do plano:Delimitação de área de intervenção e zona tampão, com antecâmara para acesso controlado.Fases de obra que minimizem parada assistencial, com janelas negociadas com a direção técnica.Pressão diferencial conforme risco: áreas em obra frequentemente operam em pressão negativa para conter partículas.Filtração reforçada (pré-filtros e HEPA) em exaustão/recirculação temporária, com monitoramento de particulado.Rotas segregadas para entulho, materiais novos e equipe, vedando interseção com circulações clínicas.Plano de limpeza por níveis: diária, entre fases e terminal antes da reabertura.Normas e requisitos regulatórios aplicáveisO projeto e a execução precisam observar o arcabouço normativo brasileiro e local. Entre as referências recorrentes:RDC 50/2002 (e complementares): diretrizes de projeto físico em estabelecimentos assistenciais de saúde.RDC 222/2018: gerenciamento de resíduos de serviços de saúde (RSS) no canteiro e rotas internas.NR-32: segurança e saúde no trabalho em serviços de saúde, aplicável à equipe de obra e rotinas de EPI/EPC.ABNT NBR 7256: tratamento de ar em ambientes de saúde (trocas de ar, filtragem e pressão).ABNT NBR 13534: instalações elétricas em estabelecimentos assistenciais de saúde (sistemas IT-M, equipotencialização, aterramento).ABNT NBR ISO 7396-1: sistemas de canalização para gases medicinais (oxigênio, ar comprimido, vácuo, N2O), testes e comissionamento.Em BH, é comum a exigência de alinhamento prévio com a Vigilância Sanitária Municipal quanto à estratégia de segregação e limpeza durante fases críticas, além da compatibilização com o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) quando há interferências em compartimentação, portas corta-fogo, instalações elétricas e rotas de fuga.ICRA, contenção e barreiras físicasO nível de ICRA define quantas camadas de contenção são necessárias para isolar a obra. Para UTIs, geralmente demanda-se contenção avançada. Elementos típicos:Barreiras rígidas: painéis de drywall com dupla camada e vedação perimetral, ou painéis metálicos modulares laváveis, com portas automáticas ou de fechamento estanque.Antecâmaras: espaço de transição com tapete adesivo, dispensadores de solução alcoólica, cabideiro para EPI, e, quando indicado, pressurização própria.Pressão negativa na área em obra: unidades de exaustão com HEPA H13/H14 dedicadas, com dutos provisórios lançados a pontos de descarga externa.Vedação de shafts e passagens: selantes intumescentes em travessias temporárias e tampões removíveis herméticos em dutos e eletrocalhas.Gestão de portas e vãos: fechamento com soleiras provisórias, rodapés de contenção e escovas de vedação.É importante planejar a manutenção das barreiras. Poeira e vibração podem criar frestas com o tempo; inspeções diárias e checklists devem ser adotados para recalçar vedações e substituir pré-filtros.HVAC em UTIs: pressão, taxas de renovação e filtraçãoA obra em UTI frequentemente interfere no sistema de climatização e ventilação. A ABNT NBR 7256 é a base para requisitos de ar em ambientes críticos: taxas mínimas de trocas de ar por hora, níveis de filtragem, cascatas de pressão e controle de temperatura/umidade.Pontos-chave para o plano de execução:Isolamento do circuito: quando possível, desligar e selar difusores/retornos da área em obra para evitar contaminação do sistema central.Filtração provisória: exaustores com HEPA dedicados à área em obra e pré-filtros G4/M5 nas tomadas internas.Monitoramento: registros contínuos de pressão diferencial com alarme local, além de leituras de partículas (ISO 14644 como referência de boas práticas, quando aplicável).Rebalanceamento: ao final, recalibração de difusores, checagem de vazões, troca de filtros, e testes de integridade HEPA (PAO) quando aplicável.Se a UTI permanecer parcialmente operacional, desenhar uma cascata de pressão segura é crítico: manter áreas assistenciais com pressão positiva em relação aos corredores, e a obra em pressão negativa em relação a todas as adjacências. Em edifícios existentes em Belo Horizonte, com centrais de ar de diferentes eras, costuma ser necessário um estudo de engenharia de HVAC para prever vazões e impactos de dutos provisórios na operação do restante do hospital.Controle de poeira, umidade, ruído e vibraçãoO controle de partículas é a medida mais evidente para mitigação de risco de Aspergillus e outros fungos associados a surtos nosocomiais durante obras. O plano deve contemplar:Nebulização ou supressão de poeira em demolições leves, associada a aspiração com filtro HEPA nos pontos de geração.Tapetes adesivos, higienização de solas e rodas de carrinhos na antecâmara.Lavagem úmida das superfícies de circulação da obra e proibição de varrição a seco.Controle de umidade: evitar condensação em pontos frios e infiltrações que favoreçam crescimento fúngico.Ruído e vibração: planejamento de corte e perfuração em janelas horárias; uso de ferramentas de baixa vibração e proteção de equipamentos sensíveis da UTI (bombas, monitores) com amortecimento.Todos os resíduos devem ser ensacados e selados na área de obra. A movimentação deve ocorrer por elevadores dedicados ou em horários de baixo fluxo, com proteção dos percursos por filmes plásticos ou placas modulares laváveis.Materiais e acabamentos adequados a UTIsMesmo quando o escopo é restrito, a compatibilidade dos acabamentos com a rotina de higienização hospitalar é mandatória. Recomenda-se priorizar superfícies lisas, contínuas, resistentes a saneantes e sem porosidade. Exemplos:Pisos: revestimentos vinílicos homogêneos em mantas com solda a quente, rodapés côncavos (meia-cana) e selagem de juntas; alternativas incluem resina epóxi autonivelante para áreas técnicas.Paredes: PVC hospitalar em placas ou mantas, pintura epóxi de alto sólidos ou PU hospitalar; proteção de impacto em PVC/ABS.Tetos: módulos removíveis laváveis e herméticos em áreas com manutenção frequente, ou tetos monolíticos com pintura epóxi em áreas de assepsia reforçada.Portas: folhas com superfície lisa, resistentes a desinfetantes; quando exigido, portas com vedação perimetral e visores embutidos.Bancadas e nichos: superfícies sólidas (solid surface) com cantos arredondados; cubas monobloco.Detalhes construtivos como cantos arredondados, rodapés sanitários e selagens elásticas em interfaces com equipamentos reduzem acúmulos de sujidade e facilitam a limpeza terminal.Instalações elétricas, dados e gases medicinaisUTIs têm alta densidade de pontos elétricos, TI e gases medicinais. Em obra, qualquer intervenção requer planejamento com engenharia clínica e TI hospitalar.Elétrica e aterramentoConformidade com ABNT NBR 13534 e NBR 5410. Em áreas de atendimento ao paciente crítico, circuitos em esquema IT-M, transformadores de isolamento médico, monitores de isolamento e barramentos equipotenciais são comuns. A obra deve prever testes de continuidade, impedância de loop, seletividade e termografia dos quadros. Iluminação com níveis adequados de iluminância e IRC, e redundância em circuitos essenciais (grupo gerador e UPS).Dados e sistemasRede estruturada categoria 6A ou superior, dutos com reserva e encaminhamentos redundantes quando possível. Proteção eletromagnética em calhas compartilhadas e identificação padronizada em patch panels e tomadas. Planejar janelas de migração de rede para evitar indisponibilidades de monitorização e prontuário eletrônico.Gases medicinaisProjetos e execução conforme ABNT NBR ISO 7396-1: materiais (cobre desoxidado fosforoso), brasagem com fluxo inerte, limpeza interna, testes de estanqueidade e pureza, e validação funcional com engenharia clínica. As bases de leito exigem layout compatível com ergonomia, fluxos e manutenção.Segurança do trabalho e biossegurançaEquipes de obra em ambiente hospitalar devem cumprir NR-32 e as rotinas da CCIH. Protocolos mínimos incluem:Treinamento específico de biossegurança, etiqueta respiratória e fluxo de circulação.EPIs adequados: avental descartável ou roupa dedicada, touca, máscara PFF2 quando houver poeira, óculos e luvas conforme atividade.EPCs: barreiras físicas, exaustão com HEPA, sinalização e bloqueios físicos de acesso.Gestão de resíduos: segregar RSS gerados em atividades específicas (por exemplo, filtros contaminados) e destinar conforme RDC 222.Registre diariamente ocorrências, inspeções de barreiras e leituras de pressão. Auditorias rápidas, com listas objetivas, ajudam a identificar desvios antes que impactem a operação do hospital.Fases, cronograma e logística em ambiente ativoObras em UTI raramente permitem desligamento completo prolongado. Uma abordagem por fases, sincronizada com a ocupação de leitos, reduz impacto. Elementos a considerar:Segmentação da UTI em células funcionalmente independentes, com barreiras entre trechos ativos e em obra.Janelas de maior interferência (demolições, despoeiramento) programadas para períodos de baixa ocupação ou horários noturnos.Estoque descentralizado de insumos na obra para diminuir deslocamentos e cruzamentos com rotas clínicas.Plano de contingência para falhas de energia e HVAC durante intervenções.Em Belo Horizonte, a logística urbana e o acesso a fornecedores especializados (filtros HEPA, portas hospitalares, pisos vinílicos) impactam prazos. Ter cadeias de fornecimento locais mapeadas ajuda a reduzir riscos de paralisação.Testes, comissionamento e validações pré-reaberturaAntes da entrega e reocupação, a UTI reformada deve passar por um ciclo de testes planejado:HVAC: verificação de vazões, temperatura/umidade, cascatas de pressão, testes de integridade de filtros HEPA (PAO), medição de ruído e velocidade em difusores.Elétrica: ensaios de isolação, funcionamento de transformador de isolamento, atuação de dispositivos DR onde aplicável, comissionamento de sistemas de emergência e UPS.Gases medicinais: testes de estanqueidade, pureza, alarmes, queda de pressão e fluxo na base de leito.Arquitetura: inspeção sanitária de acabamentos, continuidade de selagens, planicidade de pisos, conformidade de rodapés sanitários e cantos.Limpeza terminal: protocolo com detergente enzimático, desinfetante apropriado e, quando indicado, tecnologias complementares (UV-C) validadas pela CCIH.Todos os resultados devem compor um dossiê de comissionamento, com registros, certificados, ARTs e as built atualizados para facilitar futuras manutenções e fiscalizações.Comunicação e governança da obraUma obra em UTI envolve múltiplas partes: direção técnica, CCIH, engenharia clínica, manutenção, enfermagem, TI, fornecedores e empreiteiros. Para reduzir riscos, estabeleça uma governança clara:Ritos de comunicação: reuniões diárias rápidas em campo e semanais com stakeholders, com atas objetivas e decisões registradas.Matriz RACI para responsabilidades de aprovações, testes, limpezas e liberações de fases.Planos visuais: plantas com setores, fluxos, barreiras e pontos de medição, afixadas na antecâmara.Gestão de mudanças: qualquer alteração de escopo ou método que afete risco deve passar por reavaliação ICRA.Ferramentas digitais de checklists e registros fotográficos ajudam a demonstrar conformidade para auditorias internas e órgãos fiscalizadores.Integração com exigências locais em BH/MGA adequação às normas federais é o ponto de partida, mas o contexto municipal e estadual influencia o percurso. Em BH, recomenda-se:Consulta prévia com a Vigilância Sanitária Municipal sobre a estratégia de obra com UTI em operação parcial, formalizando protocolos de barreira e limpeza.Alinhamento com o Corpo de Bombeiros de MG quando houver intervenções em compartimentação, detecção/alarme, rota de fuga ou alteração de layout que impacte o PPCI e o AVCB.Interface com a prefeitura para logística de caçambas e carga/descarga em vias com restrições, evitando conflitos com horários de pico.Essa integração antecipada reduz retrabalhos e paralisações decorrentes de exigências supervenientes.Checklist prático para obra em UTIICRA aprovado e sinalizado em campo.Barreiras rígidas montadas, testadas com fumaça e vedadas perimetralmente.Antecâmara equipada com EPI, pia ou álcool gel, tapete adesivo e registros de acesso.Sistema de exaustão HEPA instalado, com monitor de pressão diferencial e alarmes.Rotas de entulho e materiais novos segregadas e protegidas.Pisos, paredes e tetos especificados com superfícies laváveis e contínuas.Interferências com elétrica, gases e TI mapeadas e bloqueios de segurança planejados.Planos de limpeza diária, entre fases e terminal validados pela CCIH.Plano de testes e comissionamento com responsáveis e datas.Dossiê de documentação: ARTs, laudos, catálogos de materiais, as built, relatórios de ensaio.FAQÉ possível executar obra em UTI com a unidade parcialmente operante?Sim, desde que haja segregação física com barreiras rígidas, pressão negativa na área de obra, rotas independentes e governança com janelas horárias. A avaliação ICRA define a viabilidade. Em muitos casos, a UTI é fatiada em setores para permitir rodízio de leitos sem interromper a assistência.Como garantir a pressão diferencial durante a obra?Utilize exaustores dedicados com filtros HEPA e controle de vazão, sele difusores/retornos do sistema central na área de obra, instale sensores de pressão com alarme e execute testes de fumaça para verificação qualitativa de fluxos. Recalibre o balanço sempre que barreiras forem alteradas.Quais testes são obrigatórios antes da reabertura da UTI?HVAC (vazões, trocas de ar, integridade HEPA, pressão), elétrica (isolamento, funcionamento de circuitos essenciais, aterramento e equipotencial), gases medicinais (estanqueidade, pureza e alarmes), além de inspeção sanitária de acabamentos e limpeza terminal com registro pela CCIH. A documentação deve integrar o dossiê de comissionamento.Como reduzir o risco de infecções por poeira e fungos durante a obra?Barreiras rígidas bem vedadas, pressão negativa na obra, exaustão HEPA, limpeza úmida frequente, rotas segregadas, tapetes adesivos, supressão de poeira nas demolições e monitoramento de partículas. O plano deve ser validado pela CCIH e revisado a cada mudança de fase.Quais EPIs e procedimentos são indicados para equipes de obra na UTI?Conforme NR-32 e avaliação de risco: roupa dedicada ou avental, touca, máscara PFF2 quando houver poeira, óculos e luvas conforme atividade. Higienização de mãos na antecâmara, descarte correto de EPIs descartáveis e proibição de circulação em áreas clínicas sem autorização.ConclusãoReformar uma UTI é um exercício de engenharia de detalhe e gestão de risco, no qual planejamento, contenção, HVAC, instalações críticas e limpeza terminal formam um sistema integrado. Em BH, a coordenação com a Vigilância Sanitária, Corpo de Bombeiros e fornecedores locais aumenta a previsibilidade e reduz interrupções. Para discutir um plano técnico de intervenção em UTI, com foco em governança, contenção e comissionamento, entre em contato com a MUD Engenharia, empresa de obras e reformas corporativas, residenciais e hospitalares em Belo Horizonte. Vamos conversar sobre o seu projeto: mudengenharia.com.br.

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Obra em UTI hospitalar: planejamento e execução

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